quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Diva do Lago Maracá

Naquela manhã de domingo, ela deixou de ir ter com os seus. Afinal entendera que não tinha o seus. Não lhe pertenciam nem os pais, nem os amigos. Os “amantes”... Tantos que foram, sexo rápido, sem nenhum prazer, nem os sabia amantes também. Apenas a imagem de Léo veio à sua mente. Estava ofegante e sentia muita dor no corpo. Ela estava sem um dos sapatos de salto, suas unhas postiças haviam se perdido e sua saia estava manchada com o sangue de suas mãos. Em sua boca ela podia sentir o gosto de sangue, a língua queimava em brasas.
Sentou-se na plataforma de madeira flutuante, em sua ilha imaginária no Lago Maracá. Mergulhou os pés na água. Um acalanto para as suas dores quando criança. Aquele lugar a acolhera tantas vezes nas manhãs de domingo. Depois de noites e noites sonhando com a satisfação eterna na efêmera sábado à noite, finalmente era ali que terminava o sonho de Cinderela sem par. Ao ouvir as badaladas do sino da igreja, ela não fazia ideia de como seu conto de fadas se encerraria.
         Chamava-se de Déborah, gostava daquele nome desde sempre. Ela mesma havia se batizado. E quantas foram as vezes em que sonhara com o seu batismo. Sua mãe preocupada com o almoço do domingo, dando-lhe apoio em seus braços, o pai dando-lhe o conforto em seus olhos, o padre dando-lhe uma religião em sua bênção sagrada. E o Léo de terno e gravata dando-lhe todo amor que ela precisava. A tia de longe viria, com os primos mais velhos. Depois haveria muita alegria pela casa. Todos felizes, comemorando seu renascimento glorioso abençoado por Deus.
         Mas Deus havia lhe virado as costas. Tanto amor que desde criança, quando já sonhava em ser menina, havia devotado a ele, e nenhuma permissão para ter lugar no seio da religião em que fora criada.
Tinha muitas clientes do salão de beleza onde trabalhava como manicure, psicóloga, madre, cafetina, prostituta. Sentia-se uma verdadeira artista, sob o olhar daquelas que lhe doavam condescendência. Achavam-se melhores do que ela. Riam juntas das histórias que contavam e pareciam melhores amigas naqueles instantes.
         Deborah ficava sabendo sobre a vida de todo mundo na cidade. Os noivos que pulavam a cerca, os padres que saíam com beatas, os maridos que comiam “veados”. Tudo lhe era entregue nas mãos. Poderosas mãos de manicure...
         Sua diversão preferida era ficar em casa sonhando com as Divas americanas. Fazia dublagens em frente ao espelho, sem ao menos conhecer a letra das músicas. Imaginava-se muito famosa e criava para si nomes que nem sabia pronunciar, namorava atores famosos, saía em revistas de fofoca, ganhava prêmios fabulosos, morava em lugares do mundo onde nunca iria e naqueles instantes se achava linda, amava-se e seu poder era ilimitado.
         Era sua vingança particular contra sua mãe religiosa, que a deixou ser expulsa de casa pelo pai machista e alcoólatra, na sua festa de dezoito anos.
         Quando criança, certa vez, todos haviam saído de casa, então ela foi ao quarto de sua mãe. Um lugar tão mágico quanto uma casa de bonecas. Havia tantos perfumes, batons, vestidos, sapatos, que Henrique não pôde resistir. Sentou-se na frente do espelho e assim foi se transformando, cuidadosamente em Deborah. Colocou blush nas pequenas bochechas de menino. Borrou o batom em seus lábios. Penteou os cabelos como se fossem lisos e longos. Depois abriu o guardarroupa e escolheu o melhor vestido de sua mãe. Ficou enorme, mesmo assim para ele aquele momento era seu, único e algo lhe dizia que ninguém lhe tiraria aquele prazer de se ver como realmente era: uma menina.
Então a mãe entrou no quarto e o pegou como se ele fosse uma boneca de pano. Sabia que seria punido, por alguma coisa muito ruim que fizera. Mas, sentia nos olhos da mãe que ela não sabia o que fazer. Sua única reação foi bater em seu frágil corpo com um cinto de couro, enquanto todo seu ódio a fazia rasgar o vestido aos pedaços. Henrique ficara totalmente despido. Por um instante a mãe olhou seu filho diante de si, um pequeno sopro de compaixão resfriou sua alma, viu que as lágrimas desesperadas de Henrique derretiam toda a maquiagem de seus olhos, sua máscara de menina fora arrancada. Ela ainda tentou dizer alguma coisa, ensaiou uma frase que justificasse o que fizera, mas fugiram-lhe as palavras.
         Dona Ondina, o exemplo de cristã da cidade, resolveu que deveria levá-lo à igreja. O padre daria jeito naquele menino, “só Deus”, falava em voz baixa para não encarar as amigas. Porque teve que explicar para elas o que havia acontecido, pois faziam parte de um grupo de oração semanal, no qual todas as mulheres de boa vontade da cidade se reuniam. Todas queriam ajudar Ondina contra as ações do demônio e oravam por Henrique.
Enquanto elas oravam, o menino ficava trancado na sacristia da igreja recebendo conselhos do padre e lendo trechos da Bíblia sagrada. O padre era muito amoroso, muito carinhoso com Henrique, tanto que o garoto saia transtornado da igreja todas as vezes que se trancava com ele naquele lugar “sagrado”. Ninguém entendia o que estava acontecendo, por isso todas elas intensificaram as orações.
E durante meses, Henrique apanhou de sua mãe todas as quartas-feiras para ir ter com o padre. E suas amigas rezaram todas as orações que conheciam. Até que um dia o padre foi passar uma temporada de seis meses na Itália, com o pesar das senhoras e senhores da cidade. Houve festa, fogos de artifício, quermesse e muitas despedidas. Naquela noite, enquanto os fogos estouravam, Henrique deitado em sua cama via as luzes coloridas refletirem na janela de seu quarto. Ele fechou os olhos e até agradeceu a Deus...
Em seu aniversário de dezoito anos, o pai intrigado com o jeito feminino do rapaz, seu modo de vestir, corte de cabelo, orelha furada, insinuou na frente dos convidados que ele não gostava da ‘fruta’ e completou:
__Já está na hora de você começar a namorar, rapaz. Na sua idade eu já tinha namorada. Quer dizer, na sua idade, todo rapaz macho tem namorada.
Ele olhou bem fundo nos olhos do pai, que estava bêbado, e percebeu que não haveria oportunidade melhor para se vingar daquele homem asqueroso, alcoólatra, violento e gritou... Gritou toda a sua liberdade e direito de ser quem era: disse que jamais se casaria com outra mulher, porque ele era uma mulher. Um dia, ele ia se casar com um homem. E sob risadas nervosas, o Sr Fausto tentou não entender a resposta à sua provocação, mas foi impossível.
Henrique foi arrastado até a calçada como um saco de lixo, na frente dos convidados, vizinhos, amigos, sua mãe; sem direito à defesa. Levantou-se com dignidade, ainda encarou toda a família de tal forma que todos ficaram constrangidos em admitir ao garoto que seu pai tivesse alguma razão. Virou as costas e seguiu, sem olhar para trás e sem saber olhar para frente. Para onde iria?
Depois de andar batendo de porta em porta, uma senhora aposentada o acolheu, pagaria suas despesas com o dinheiro do salão onde trabalhava. E assim passou a morar em um cômodo no fundo da casa dela, que nunca fez questão de entender se ele era homem ou mulher. Ela queria apenas o pagamento em dia. Naquele lugar, ele se estabeleceu, em seu paraíso, longe do ódio e longe do amor. Foi então que se transformou definitivamente em Deborah, a Diva do Lago, como costumava dizer.
De vez em quando, ela saía com suas amigas para dançar. Afinal, a noite de sábado era o seu grande sonho de princesa de televisão. Nunca tinha lido nenhum conto de fadas, a não ser a Bíblia, mas, de ouvir dizer, sonhava encontrar seu príncipe encantado, alguma fada madrinha lhe teria compaixão? Desejava com toda a sua alma encontrar um homem que a amasse. Queria sentir prazer fazendo sexo. Desde que fora violentada, na infância, achava que sexo era ruim, mas não deixava de sentir uma vontade imensa de praticá-lo, embora o tivesse transformado em um meio de sobrevivência, tinha esperança de sentir algum prazer. E no momento em que acabava, estava incompleta novamente. Como se fosse obrigada a ser apenas um eterno brinquedo nas mãos de seus parceiros.
A melhor transa de sua vida tinha sido com uma amiga lésbica transexual. Ela saia com travestis e era muito carinhosa. Foi a única vez que conseguira gozar de verdade e nem precisara ter ereção para isso. O acolhimento, o carinho, a forma masculina afeminada como aquela mulher a tocara, mostraram-lhe a verdade sobre o sexo. Uma verdade peculiar que transcendia o masculino e o feminino. Ela não pensava sobre o assunto, apenas sentia. Quase entendeu que estava apaixonada.
Ali, sentada na plataforma flutuante, não conseguiu pensar em seu futuro ao observar atentamente o inchaço de seu rosto refletido nas águas do lago. Sua tristeza era tamanha que não conseguia organizar os pensamentos e chorava como há anos não havia feito.
Na noite anterior, ela fora a um show com suas amigas. Durante o evento, após algumas cervejas, Deborah se dirigiu ao banheiro feminino. Na porta havia uma mulher carrancuda.  Ela lançou seu olhar para Deborah deliciosamente trajada, usava um vestido de tecido leve, que lhe garantia feminilidade autêntica ao seu corpo de menino. Nem as outras mulheres dominavam tão bem um sapato de salto alto como ela. O encanto que tal mulher sentiu por Deborah foi tão intenso e violento que lhe provocou um sentimento de ódio e despeito em seu corpo adiposo e ensebado pelo suor que lhe escorria das têmporas.
_ Este banheiro é feminino. Você não pode entrar... Deborah recuou transtornada.
_ Se quiser... Vai no banheiro masculino. – E com um sorrisinho no canto dos lábios completou: _Quem sabe você não se arranja por lá? Calada, a jovem dirigiu-se ao banheiro masculino. Parou diante da porta, respirou fundo, sentiu aquele cheiro ácido de urina e entrou. Havia vários homens enfileirados ali. Eles a buscaram com seus olhos de medo, nojo, desejo, ódio... Eram muitos e cada um a leu de uma forma. Todos sabiam quem era aquela figura: o filho de dona Ondina, a religiosa.
Um silêncio constrangedor pairou no ar. Todo mundo parou de falar. Foi como se ela tivesse pedido silêncio para desfilar a perversidade da sociedade. Mas era boa atriz, seu constrangimento atingiu um nível desolador, então ela encarou o chão fingindo ter percebido algo em seu sapato.
Nesse momento um dos caras quebrou o gelo com uma piadinha de bicha. Todos os outros riram, um riso nervoso de provocação, quem ousaria não rir? A cada abertura de porta, era um a menos na fila. Havia aqueles que faziam no “coxo” mesmo, rapidamente e saíam desconfiados. Cada passo, próximo ao banheiro privativo era para ela uma oportunidade de ficar longe da humilhação. “Anda logo”, pensava aflita.
Quando o penúltimo homem da fila entrou no banheiro, um jovem meio cambaleante surgiu porta adentro e percebeu a presença de Deborah na fila.
_Ui... que gata, hein? Tá precisando de macho é?
Conhecia aquele sujeito, ele era cliente dela. Muitas vezes tinham saído juntos, às escuras, pois “tinha uma noiva” e “iria se casar em breve”. Os dois se reconheceram e Deborah sentiu que ele estava com aquele olhar de revolta. Todas as vezes em que ficaram, depois que gozava pedia para ela sair do carro, parecia tomado por nojo, asco. Ela pegava seu dinheiro e ia embora. Mas naquele momento ela estranhou a reação do rapaz, que continuou:
_Você quer pau, é? Por isso que está aqui? E como se uma epidemia tivesse tomado conta dos dois homens que não ousavam olhar para ela, começaram a rir, livrando-se do constrangimento e libertando uma cumplicidade amedrontadora.
O troncudinho bêbado, ao conseguir atenção de uma platéia inteira, de “machos”, que foi surgindo, começou a incitar os outros caras a agredir Deborah.    
_ É isso aí galera, veado a gente mata é no pau. Vamos dá porrada nessa bicha. - Então ele partiu pra cima dela, segurou-a pelos braços. Ela implorava para que a soltassem, pedia socorro, ninguém a ouvia do lado de fora do banheiro masculino. Assim, o rapaz jogou-a contra a parede de costas, outros dois a seguraram com força.
_ Agora você vai ver o que é levar pau.
A força avassaladora com que a violência tem em tomar conta de pessoas aparentemente inócuas e vazias de sentido levou aqueles sujeitos a cometer uma insanidade coletiva contra Deborah.
Os socos e chutes se desenhavam no ar com uma velocidade impressionante. Naquele momento, seu corpo, tornara-se um mero objeto, algo sem interior, sem existência, sem identidade, sem nenhum valor.
O tempo de um instante foi o que durou um rápido resgate que fez de sua infância naquele momento. Em meio ao odor da urina, e a escuridão desconfortável daquele lugar, ela vislumbrou a caixinha de música que sua tia louca lhe dera, antes de falecer.
_ Meu filho, tome essa caixinha de música pra você. Sei que gosta muito dela. Brinque muito com as minhas jóias. Você é meu pequeno porta-jóias. Quero que seja alguém muito especial, mas que seja você mesmo, sempre. Está ouvindo este som? Às vezes a gente não consegue dançar ao som das músicas... Guarde esse conselho com você, ele pode se tornar assustador para algumas pessoas. Não se iluda com as jóias, elas são apenas enfeites que vem e vão, no final só nos resta a caixinha e sua linda melodia.
Então, tudo pareceu fazer parte de um grande engano. Todos ao seu redor moveram-se ao ritmo daquele som lento e compassado, que acalantava sua mente de menina. Leve bailarina a rodopiar em “Pas de deux” diante de glamourosa platéia a aplaudir seu talento exuberante.
Ouviu-se um estrondo quando caiu no chão, foi pisoteada, chutada:
 _ Na cabeça não – disse um dos sujeitos num tom “misericordioso”.
No momento em que sentiu que ia desfalecer, teve tempo de perceber a presença de outro jovem. Ele também deu socos e pontapés, mas não os sentira. Antes de tudo se apagar, ela notara que ele não batia contra seu corpo, mas contra o corpo dos outros homens dentro do banheiro. Ainda teve tempo para um meio sorriso, percebeu que era seu príncipe encantado, o Léo da sua infância. Tudo se apagou.


Quando acordou, estava deitada debaixo de um quiosque no parque. Alguém a levara até ali? Levantou-se devagar e quando ergueu a cabeça, sentiu-se tonta em meio às imagens que lhe invadiam o pensamento. O que faria? Pedir ajuda aos seus pais era impossível. Ouviria um monte de desaforos. Buscar a polícia? Seria muito pior do que os pais. Enfrentar o olhar de piedade das amigas? Jamais...
 Tirou o sapato e foi caminhando até a calçada, pois estava no meio do parque, entre as árvores. Estava um pouco escuro ali. Não conseguia ver direito onde pisava. As luzes da rua estavam ficando perto. Foi então que percebeu um vulto. Era certamente um homem que a rodeava.
_Quem está aí? – Perguntou sem poder enxergá-lo direito. – ... quem está aí?
_Acalme-se. Eu voltei pra ver como você estava. Fui eu quem a colocou no quiosque – disse ele se aproximando dela.
_ O que foi? Sentiu remorso? Veio ver se eu tinha morrido? – disse Déborah aos prantos.
Um silêncio assustador criou-se entre os dois quando se olharam no olho com o descortinar das luzes da rua, este olhar foi tão avassalador para a alma de ambos que pareceu nunca ter fim. Uma coruja anunciando sua presença cortou o silêncio com seu canto mórbido.
_ Eu sou o Léo! – disse ele como quem revela um segredo.
_ Prazer – disse ela, como quem entende que não havia motivo para ter medo. E então sentiu que algo de bom lhe havia acontecido, no meio da tragédia, um homem havia lhe salvado a vida.
_ Eles teriam me matado? – continuou esboçando um entendimento da situação.
_ Com certeza. Eles iam te matar quando eu cheguei. Você estava sendo pisoteado, pisoteada, tinha um cara chutando sua cabeça. Quando vi aquilo não consegui me controlar. – ele se virou e sentiu uma lágrima caindo e sua respiração ofegante. – O que você fez pra eles? – o tom da pergunta foi vago e a resposta foi um longo silêncio.
As pernas de Déborah doíam, sentia também as costas, o abdômen, e sua cabeça latejando por dentro e por fora. O rapaz tirou um lenço do bolso e entregou nas mãos dela.
_ Tome, pra você limpar seu rosto. Eu estou no carro do meu irmão. Você tem que ir ao pronto-socorro. Vamos. – disse ele com um ar heróico.
No entanto, ela, ciente da situação olhou bem fundo nos olhos dele e sussurrou cansada:
_ Você tem certeza que quer andar comigo até o pronto-socorro? Isso tudo vai terminar com um B.O. quer ser testemunha?
_ Eu voltei aqui para fazer isso. Sou seminarista. Não posso deixar um filho de Deus sofrendo desse jeito.
_ Alguém da sua família sabe que você está comigo? – perguntou a jovem com o receio de criar mais um problema para si.
_ Não se preocupe. Estão todos dormindo a esta hora. Não preciso que ninguém saiba de nada.
Ela balançou a cabeça negativamente.
_ Obrigada. Você fez hoje por mim, mais do que qualquer pessoa já fez em minha vida inteira. – estendeu-lhe a mão no intuito de confirmar o agradecimento.
Léo relutou em tocar, aceitar a mão de Deborah na sua. Quando as mãos se tocaram foi inevitável uma volta no tempo. Ambos passaram a ser crianças novamente e se lembraram de quando moravam perto um do outro. E quando dançavam juntos ao som da caixinha de música da tia louca de Déborah. Sonharam esse instante quase que simultaneamente. Henrique deixou cair um objeto no chão e Deborah se abaixou para pegar. Era um terço de prata, um presente que Dona Ondina havia comprado para Léo há muitos anos atrás, numa tarde de sábado. Henrique havia escolhido, porque sabia que o amigo estava indo para um colégio católico, queria que levasse o presente para que durante a época das aulas eles tivessem algo para se lembrar um do outro. Henrique tivera um igual, mas acabara perdendo.
_ Eu sei quem você é. Me lembrei de imediato, quando o vi me salvando, antes de desmaiar. Este terço – Deborah o mostrou em sua mão -Eu me lembro do dia em que te dei este terço. Você o leva para onde vai?
         O jovem seminarista ficou meio ansioso. Aquela conversa estava seguindo por um caminho que não lhe agradava nem um pouco. Não pretendia nenhum tipo de aproximação daquela, daquele...
- Tenho tantas lembranças de quando éramos... Lembra-se quando dançávamos juntos... Ela se calou, percebeu que estava seguindo por uma direção contrária à de seu príncipe seminarista.
O silêncio novamente se fez presente, mais constrangedor ainda. Depois de algum tempo Léo perguntou:
- O que houve com você, Henrique? Aquilo tudo era coisa de criança, a dança, a música, a gente cresceu. O que foi que você se tornou?
_ Você não é meu amigo? Não iríamos ficar juntos pra sempre?
_ Me diga, quem vai aceitar isso? Como você pode viver assim?   Então Deborah percebeu que estava longe de ser aceita por ele, que a olhava com olhos indefiníveis. Era impossível reconhecer seu amigo de infância, seu primeiro namorado.
- Eu me tornei o que sempre fui. O que você está vendo sou eu realmente. Não estou usando uma fantasia. Sou uma mulher.
Léo sentiu tanto medo, queria sair dali, precisava ir embora. Não queria ouvir aquilo, não queria entender o que estava sentindo.
- Não você não é uma mulher. Deus te fez homem. Você tem que honrar isso, ninguém pode mudar a vontade do Senhor, você está confuso.
Ofegante, e já sem saber o que estava fazendo ali, Léo se calou e sentiu que estava tendo um ereção. Tentou disfarçar, mas Deborah percebeu e com sua calma complacente, recostou-se numa árvore e disse:
_ Se quiser, pode ir, eu já estou bem. Vá antes que o que houve entre nós se transforme em algo que você nunca vai conseguir entender.
Ele continuou com aquele ar relutante de antes. O que havia naquele olhar? Como alguém pode conter no olhar um misto de bondade, crueldade e desejo tão intrínsecos que não se consegue definir onde começa um e onde termina o outro.
_ Eu sinto muito... – suspirou o rapaz, com os lábios úmidos de desejo e pavor.
         O jovem virou-se na direção da rua e foi andando rapidamente. Tão rapidamente que não percebeu que esquecera o terço. Alguma coisa dentro dele entrara em conflito: jovem e sexy princesa de sua infância despertara algo dentro dele.
Déborah o viu entrar no carro. Ele ainda demorou uns minutos. Então finalmente partiu. Seu rosto tinha um semblante indefinível. Enquanto o carro desaparecia ao longe, ela seguia adiante. Adentrou ao parque em direção à sua plataforma flutuante. Notou que já estava amanhecendo.
Sobre seu reflexo na água, enxugou as lágrimas, pois não queria sentir tristeza por causa de nada. Então, imaginou-se uma sereia, como num filme que assistira depois da novela. Poderia mergulhar naquele lugar que sempre a acolhera e nunca mais voltar. Conseguiu imaginar a reação de cada pessoa de sua família ao receber a notícia de sua morte.
         Sua mãe ia fingir que estava passando mal. Pediria perdão a Jesus em seu lugar. Faria um velório grandioso em sua memória e a colocaria vestida num lindo terno preto. Seria enterrada como Henrique, seu rosto teria um semblante masculino e seus cabelos seriam impiedosamente cortados.
Tudo se tornaria num grande evento social e as amigas diriam com uma profunda piedade: “Coitada, mas infelizmente o destino dessas pessoas é esse mesmo”. As clientes mandariam coroas de flores e iriam ver o seu cadáver só por curiosidade mórbida. “Como ele ficou bonito de homem, meus pêsames dona Ondina”.
E o padre pedófilo iria rezar o rosário evitando não lembrar que o estuprara repetidas vezes na sacristia, na época em que, ainda Henrique, ele fora seu orientador de leitura da Bíblia. Sob o mesmo teto sagrado em que sua mãe fazia suas intermináveis novenas pedindo proteção a São Sebastião.
A manchete no jornal a deixaria famosa. Finalmente seria notícia oficial. Como falariam dela no artigo? Já tinha tudo em sua mente. Usariam palavras bem interessantes para falar de Déborah e Henrique - seria a segunda vez que morreria.
Preparava-se para voltar para casa quando viu um vulto na superfície do lago, alguém estava atrás dela, teve um segundo de esperança, pensou ser Henrique voltando para se desculpar e...
 Foi quando sentiu uma forte pancada na cabeça, que instantaneamente a levou da realidade. Assim sonhou que se entregava às águas geladas do lago, uma imagem projetava-se como filme de sessão da tarde em sua mente. Flutuava sob as águas, sua roupa, seus cabelos, pareciam levitar. Vislumbrou sua tia louca dando corda na caixinha de música.
Então, pela última vez, dançou longamente aquela melodia delicada com seu par preferido. Estava vestida de princesa e ele com a roupa de padre da paróquia de sua infância, seu príncipe seminarista, Léo. Depois, foi apenas o silêncio, o vento, os pássaros, os sons do início do domingo...
E os passantes não entenderam quando aquela mulher com corpo de menino surgiu boiando às margens do Lago Maracá, com um terço de prata entrelaçado em suas mãos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Chá com bolachas de nata

à Virginia Woolf
                                                                                                                      
Ouvi a campainha, levantei-me com certa dificuldade, abri a porta e estranhamente percebi que era Virgínia. De novo. Entrou sem ser convidada, sentou-se à mesa, indicou-me uma cadeira. Olhou-me como se eu pertencesse a ela, como se eu fosse sua criatura. Não disse palavra. Meus olhos pesavam, Rivotril? Fechei-os por um instante, quando os abri novamente, o insistente espectro havia desaparecido. Não havia nada naquela sala, além do tic-tac do relógio na parede e as flores murchas, sem água, as quais buscara no dia anterior. Era assim, que sempre esperara o dia passar. Mas aquela notícia no jornal me salvaria dela. 
Embora ali nada a interessasse, ela sempre voltava. Ignorava seus livros porcamente traduzidos, empilhados na imensa estante da minha biblioteca particular. "Whatever" - olhava. E eu ria, ria um sorriso contido, submisso àquele olhar tedioso.
Outro dia, tentei mostrar-lhe meus rabiscos, ela os jogou no ar e partiu com o mesmo olhar de sempre. Não procurava nada, apenas olhava. Olhar triste, pleno, vagaroso. Minhas vísceras chegavam a doer com a intensidade com que me tocava, lenta e fria. Pisou o chão, ouvi seus passos, deixou-me só e depois bateu a porta.
As vozes vieram sem ela numa manhã qualquer. Somente as vozes. Eram tantas, eram várias, ainda que tapasse os ouvidos eu as escutava. Falavam ao mesmo tempo. Impossível entendê-las. Consegui ver apenas uma criança que disse: "Did you buy the flowers today?" Lembrei-me do florista. Me acalmava lembrar-lhe o sorriso, tão jovem sorriso, de uma beleza cujos dedos longos, trementes, envelhecidos de agora, jamais tocariam com a intensidade e o amor que tocara a vida anterior.
Tive tempo de olhar nos olhos da menina, ela trazia consigo algo bem mais peculiar do que a vida. Dentro dos seus olhos eu via minha criança correndo pelas ruas de uma existência tão distante da solidão, da reclusão, do velho estranho e esquecido que me tornara. Então desci as escadas e ela já me esperava lá embaixo, tinha os cabelos crespos cortados na altura das orelhas, a pele muito branca e suave, usava um vestido rodado xadrez, com tons de  marrom, até os joelhos, sapatos marrons e uma meia branca na altura dos joelhos. Ela rodopiava uma infância alegre, e me pedia para ser feliz de novo, "because life is short, you know!". Sim, eu sabia, aos oitenta anos, eu sabia disso. Um filme se passava dentro daquela frase azul. Um azul claro e alegre, vindo daquela voz tão doce e companheira da menina. Foi a última vez que a vi. Depois de comprar as flores, voltei para casa, ela havia partido. Mas seu sorriso me fizera bem naquela manhã de domingo.
Coloquei as flores no vaso, como sempre esqueci de pôr água. Gostava daquele cheiro de vida e de morte exalando pela sala. Apenas eu, meus livros, algumas fotos na parede e os pensamentos sobrepostos num silêncio entrecortado apenas pela existência externa ao apartamento.
Numa segunda feira, eu a esperei ansiosamente por duas horas e ela não veio. Quando a campainha tocou, meu coração entristecido acelerou. Abri a porta o mais rápido que pude. Não era ela. Era Franco. Seus olhos azuis envoltos por inevitáveis rugas tentaram se abrir pra mim. Quanto Pacífico, quanto Atlântico, eu vivi dentro daqueles olhos. "Nossas viagens eternas, nossa cumplicidade inesgotável."
E trazia os cabelos brancos muito bem penteados, usava uma calça de linho azul marinho, uma camisa de manga curta branca com listras escuras e seus sapatos sisudos de sempre. Pelo modo como me olhara, pude perceber que eu estava muito mal. Ele pediu para entrar, usando a linguagem de sinais, pois perdera a linda voz que me acalantava em vidas passadas. Eu ainda conseguia ler seus olhos azuis.
Preparei com muita dificuldade o chá, ele adorava camomila com bolachas de nata. Simples assim. Nos comunicamos pouco. A não ser pelo fato de notar uma foto muito antiga num aparador. Ele se levantou, pegou o portarretrato, olhou-me nos olhos e chorou. De repente parecia que eu não era o único velho rabugento e solitário do planeta. O Franco também era. Abraçou-me com tanto desespero, que senti suas lágrimas molhando o meu rosto. Ironia, nunca choramos juntos em tantos anos, nem quando partimos nossos jovens corações atrás de ilusões, nuvens de fumaça desfeitas pelo tempo. Mas tristeza pareceu-me algo contagioso. Não me lembro ao certo quanto tempo, ou quanta vida compartilhamos naquele abraço, mas tenho certeza que foi a melhor coisa que me acontecera em vinte anos de completa solidão. E ela surgiu sem bater, novamente sem pedir licença, mas fingi que não a vira, não naquele momento, não na minha intimidade. Ela não tinha o direito. 
Olhei bem fundo nos olhos de Franco, ele retribuiu o olhar. Sim, voltaríamos no tempo. Sofreríamos tudo de novo. Morreríamos de amor e em seguida renasceríamos pela metade. Nos beijamos. Foi um longo beijo de uma possível e inesperada despedida? O aroma do chá em nossas bocas envelhecidas e murchas deu-nos, por minutos, vida nova. Enxugando as lágrimas, ele se afastou de mim, pediu desculpas, ensaiou um adeus e partiu com a mão nos lábios. Toda aquela sensação era demasiadamente dolorida para ele. Franco nunca soube sofrer. 
Fiquei estranhamente só. Mais do que antes. Como se todos os sentimentos naufragados há anos viessem à superfície ao mesmo tempo. Sentei-me no sofá perto da janela, afastei a cortina e através do vidro pude perceber a existência fragilizada de Franco partindo, lenta, cabisbaixa, entre os passantes. Ele se segurou num poste de luz, como se precisasse respirar. Imaginei seus olhos azuis marejados. Sua bochecha já não tão branca, toda rosada e a falta de ar. Pegou a bombinha para a asma. Sugou-a. E desapareceu no infinito na multidão. Nunca mais o veria novamente?
Mas toda noite, ela me ditava uma frase. Em versões diferentes. Era sempre o mesmo sentido. Eu ainda tinha motivo para continuar vivendo?
Acordei ainda atordoado com a visita de Franco, apesar de cansado de acordar, naquele dia estava um pouco mais leve. Preparei meu café, peguei o jornal na porta do apartamento. Foi quando li na primeira página: "Artista Plástico é encontrado morto em apartamento" - era o Franco.
As cenas foram se sobrepondo em minha mente, precisava sentir a vida. Não quis fazer nada além de sofrer. Imaginar o Franco morto era como se eu mesmo tivesse morrido. Então a campainha tocou...
Não fui ao florista, notei que as flores do dia anterior haviam morrido. O relógio, irritantemente fazia seu tic-tac. E ela, minha visitante, desaparecera num piscar de olhos. "Rivotril?"
Naquele mesmo dia, eu me lembro de estar no Pacífico, Franco me abraçava por trás. Estávamos sentados na areia sentindo a brisa do mar em nossos olhos, em nossos cabelos, esquecendo da vida, sem notar que ela estava ali nos observando o tempo todo. Era quando menos pensávamos em viver, que vivíamos. E esta imagem se apagou de repente, com as vozes, as luzes piscando, o movimento frenético de resgatar a vida... Que vida? Então ela me estendeu a mão e caminhamos em silêncio para dentro de seu mundo.

André Gonçá



terça-feira, 5 de abril de 2011

Felicidade Plena

Enquanto dedilhava Chopin no piano, o maestro, cuja adoração era notória, cintilava cores em sua aura mágica. Sentia o poder da adoração naquele momento, redesenhava então, numa partitura imaginária, notas musicais de melancolia esférica. Os olhares atentos dos espectadores atenuavam sua sede de presença. Não queria contato físico, queria apenas ser adorado. Odiava multidões, desprezava as pessoas. Sofria de agorafobia fantasiosa. E aquele, sob a luz dos refletores, era o seu lugar favorito. Uma última nota, silêncio, uma fração de segundos, e então a glória do que chamava de orgasmo apoteótico. A plateia toda se levantava para aplaudir o mestre, ovacionar o grande gênio. Num movimento simples, Álvaro reverenciava-os agradecendo, fingindo modéstia, sabia que tinha sido excelente naquela noite. E com o sangue ardendo em chamas se retirava do palco.
Sozinho em seu camarim, ele ouvia os ruídos da imprensa, fãs, seguranças, vindos do lado externo ao seu invólucro seguro. Usara-os, já não os queria mais. Era assim que sentia ao sair de cena. Realizado e inacessível. Olhava-se no espelho como quem vê a imagem de um deus. Aos quarenta e sete anos, trinta como músico, já havia conquistado o mundo. E sua paixão por si mesmo era tão grande quanto a sua vontade de viver para sempre. Ser adorado para sempre. Este desejo não era simbólico, era carnal. Desejava realmente atravessar décadas, milênios, sendo quem era. Um homem atraente, pois a idade tinha lhe atribuído mais charme e elegância, sensibilidade para o seu ofício não lhe faltava e a disposição para viajar e se fazer presente diante do mundo era inesgotável.
Mas, naquela noite estranha, algo aconteceria. De fato, não queiram senhores que os fatos se antecipem aos detalhes. O narrador também se delicia em apresentar-lhes, entendam como lhes for possível, os acontecimentos.
Álvaro se trocou, a roupa de maestro ficara no camarim, junto com as flores, presentes, cartas e cartões. Usava agora uma camisa cinza clara, gravata preta e um terno de casimira cinza escuro. Os sapatos minuciosamente lustrados, pretos, completavam-lhe o figurino para o jantar. Sua esposa o encontraria no restaurante como sempre. Falariam o necessário. Sorririam se possível fosse. Depois talvez até fizessem amor. Mas não pensara nisso, como sempre saiu pelo corredor lateral, para não ter que enfrentar aquela multidão "insuportável". Sentia uma intensa felicidade enquanto atravessava o corredor, na direção do estacionamento, algumas imagens o acompanhavam. Somente a glória seria sua companheira naquela noite.
Apertou o botão para abrir o carro, quando ouviu a voz de uma mulher:
_ Conseguiu tudo o que queria?
Ele parou um tanto espantado, pois ninguém tinha acesso àquele lugar. Virou-se para a mulher que estava logo atrás dele.
_ Conseguiu tudo o que queria? - repetiu ela, agora ofegante e com tanto ódio no olhar, que Álvaro não teve reação imediata. Ele simplesmente percebeu, que era uma mulher de meia idade. A forma como o olhava, a pouca luz não lhe dava nenhuma evidência de quem ela poderia ser. Usava um vestido preto, que contornava as formas bastante arredondadas do seu corpo e na mão esquerda carregava uma pequena bolsa. Quem era aquela mulher? - pensou.
_ Senhora, eu a conheço? - disse ele tentando ser polido.
Ela sorriu, então o maestro percebeu que aquela risada não lhe era tão estranha.
_ Álvaro, você continua o mesmo narcisista de sempre. Como ousa dizer que não entende o que digo?
Quando ela se aproximou dele. Apesar da idade, do aparente sofrimento no olhar, dos quilos que ganhara e fizeram com que seu rosto se arredondasse bastante, ele a reconheceu.
_ Felicidade? - Disse ele com o olhar transtornado.
_ Sim é uma grande ironia, não acha? Uma desgraçada como eu ter um nome desses. - Riu-se.
_ Eu fui te procurar, mas você tinha desaparecido.
_ Onde mesmo? Em Milão? Veneza? Paris? - alterou-se assustadoramente.
_ Você sabia que eu não tinha como viver aquela vida com você no Rio de Janeiro. Olha o que eu me tornei, o que eu sou agora!
_ Conseguiu tudo o que queria? - seus olhos lacrimejaram.
_ Um homem nunca conquista tudo o que deseja, Felicidade, há sempre novos sonhos. - respondeu numa tentativa de fuga filosófica.
_ Você e sua sede de conquistas. Não é o homem, mas você quem vive atrás de novos sonhos para si mesmo, nunca para os outros.
Breve silêncio.
_ Paula está morta! - disse ela secamente.
Ele por sua vez, fingiu um suspiro, um falso olhar espantado.
_ Meu Deus! Mas o que conteceu?
Ela notou a falta de vontade em saber a resposta, ele era um péssimo fingidor e completou:
_ Uma menina linda. Inteligente, parecia com o pai. Poderia ter sido pianista, levava jeito, gostava de música. Admirava o pai que inventei pra ela. Adorava saber como nos conhecemos. Como era a nossa vida na universidade. Vida que durou pouco pra mim, porque fui ser mãe, mas você continuou os estudos. Tornou-se um grande maestro. - seus olhos lacrimejaram. A parte em que eu sofro por você ter me abandonado grávida e sem dinheiro, eu nunca contei pra ela. A morte dela foi demorada e sofrida, leucemia. O único doador possível não falava comigo, porque ele é inacessível. - Álvaro se mostrou levemente inconformado.
_ Nunca recebi suas mensagens.
_ Funcionários bem treinados são assim. Sempre obedecem as ordens de não passar recados quando o patrão é inacessível.
_ Eu sinto muito, Felicidade! - fingiu sentir algo que nunca sentiria, pensava na esposa, sentada no restaurante, queria sair logo dali, já estava entediado com aquela conversa dramática. - Olha, entre em contato comigo amanhã, a gente conversa com mais calma. O que precisar...
_ Não é por isso que vim aqui - interrompeu ela - eu vim aqui te dizer, qual era o final da história, que repetidas vezes Paulinha pediu pra eu contar. A pobre menina até chorava... O pai dela, o grande e bondoso maestro, foi vítima da violência urbana. Certa noite, sozinho, no seu estacionamento privativo, um homem o abordou. Pediu-lhe dinheiro, ele não tinha. Afinal, nunca precisava andar com dinheiro. Sempre havia uma nota para assinar, sempre haveria um funcionário para pagar. Na carteira, apenas documentos. Então o ladrão enfurecido, apontou-lhe o revólver. - Ela tirou uma arma pequena da bolsa e apontou pra ele - Coitada, ela sempre chorava quando eu repetidas vezes lhe contava esta triste história.
_ Felicidade, o que pretende fazer com isso? - perguntou ele aterrorizado, finalmente o medo se apresentava, o maior de seus medos era o que estava por vir... morrer!
_ O jovem maestro implorou por sua vida, disse que tinha uma filha pequena para criar, para que o ladrão tivesse pena dele. - os olhos de Felicidade se mostravam decididos, não pareciam desejosos de voltar atrás em sua decisão.
_ Mas o ladrão impiedoso, deu-lhe logo um tiro no peito - pela distância em que estavam, o primeiro disparo foi certeiro, a mulher olhou bem nos olhos do maestro e continuou - então, ele ainda consciente, pedia para viver, ainda não era tarde... Mas sim, já era tarde. - e descarregou o revólver no corpo do maestro.
Com um alívio extremo em seu peito, Felicidade sentiu-se liberta, parecia flutuar ao ver todo aquele sangue escorrendo do corpo de Álvaro, estendido ao lado do carro. E enquanto saía sorridente ainda pensou que finalmente sua filha iria conhecer seu verdadeiro pai. Depois foi desaparecendo como uma música leve e calma que chega ao final, bem devagar, pelas ruas da cidade.

André Gonçá

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A "sacada"

Elvis olhou-se no espelho.  Nos últimos anos ele tinha passado muito tempo malhando. Não saía da Academia Corpo, a mais badalada e “bem freqüentada” da cidade, como dizia a propaganda do rádio. Gostou de como seu corpo ficara firme e perfeitamente esculpido. Seu abdômen era sua obra-prima, com todos os gominhos que lhe eram de direito. Com o tempo dedicado a se tornar irresistível, percebeu que as coxas se tornaram grossas, salientes e duras.
Dançou diante do espelho imaginando que o fizesse para uma multidão, afinal não tinha problema em ser gostoso. Sabia que o seu forte para atrair as mulheres era seu corpo. Sabia de seu poder para controlá-las e conseguir o que queria apenas usando os atributos de sua virilidade de 21 anos.
Trabalhar e estudar, para ele, eram uma possibilidade que vivia empurrando para depois. O que lhe deixava louco de excitação era uma mulher madura solteira ou não, com uma conta bancária bem alta, com um carro bem caro, que pudesse lhe bancar os luxos. E assim sua vida “interessante” se resumia a roupas de grife, academia, carro e para não ir parar na cadeia, uma boa pensão para o filho de seis anos – fruto de um “erro de percurso”.
Se este era o seu emprego, então nunca ficara desempregado. Ele frequentava, em Guaíra, as melhores festas e eventos sociais. Era nestes eventos que conseguia abater suas presas. Umas se tornavam fixas, pois achavam um luxo manter como escravo sexual um “aperitivo” daqueles, enquanto a indigestão do casamento as corroia de dentro para fora.
Como em toda cidade pequena, onde todos sabem da vida de todos ou quase todos, Elvis era bastante conhecido entre as mulheres. E quanto mais conhecido ficara, mais requisitado ele era. Naquela manhã ele acordara excitado porque haveria uma grandiosa festa de reveillon na casa dos Ribeiro Matias, uma luxuosa propriedade localizada em frente ao lago Maracá. Cuja localização privilegiada da sacada permitia presenciar o nascer do sol sobre o lago. A visão deste evento era algo extremamente singular. Elvis gostava de ficar olhando esse espetáculo, que figurava como seu preferido, em seus raros momentos de sensibilidade.  Dona Luiza Ribeiro Matias, a anfitriã da noite, era uma senhora à beira dos sessenta anos, mas com um corpo de atriz de novela. A “coroa” preferida de Elvis, que o escondera da família por muito tempo, no entanto aos poucos conseguiu impor a presença do jovem nos eventos sociais de sua residência. Viúva há dez anos, sentiu a vida lhe sorrir novamente quando um orgasmo explosivo veio dar-lhe vida nova numa noite festiva. Bem ali, naquela sacada, onde o marido teve um infarto fulminante fumando seu último cigarro. Quando o êxtase do sexo se atenuou ela sussurrou quase ao ouvido de Elvis:
 - Desgraçado!
O rapaz assustado olhou nos olhos dela sem saber o que dizer. Ela o estava xingando?
- Desgraçado – então uma lágrima caiu-lhe dos olhos – trinta anos de casamento e nunca, nem de perto eu havia sentido isso que senti agora. Desgraçado, com pôde roubar a minha juventude?
Elvis “meio que entendeu” que ela falava do marido. Mas, ele não conseguiu entender o que acabava de acontecer.
- Está infeliz? – perguntou enxugando-lhe as lágrimas.
- Não.
- Então por que está chorando? Foi alguma coisa que eu fiz?
- Sim, quer dizer, não... – ela não conseguia falar, mas deixou claro que estava muito feliz em tê-lo conhecido e em seguida entrou numa crise profunda de choro e adormeceu ao lado do jovem, que a partir daquele instante seria sua fonte renovadora de juventude e pagaria o que fosse preciso para mantê-la sempre acesa.
À noite, próximo ao horário da festa, Sra. Matias, como era conhecida em todos os meios em que circulava, preparava-se para o grande evento que certamente não seria a festa, mas a pós-festa. Quando todos tivessem ido embora, ela pretendia colocar seu plano em ação. Teria a sacada e o rapaz só para si. Estava em êxtase reluzente.
Olhou-se no espelho, sentiu-se a mais desejada das mulheres. Não tinha se arrependido das últimas cirurgias plásticas no rosto. A maquiagem também ajudava a distanciá-la de sua idade original.  Vestia um longo azul, todo seu corpo de sereia contornado pelo tecido. Seus cabelos, que “voltaram” a ser longos, davam-lhe ares de juventude autêntica. Realmente estava linda, sentia-se linda e entregar-se-ia completamente para o seu jovem e faminto rapaz de 21 anos naquela noite.
Colocou os brincos de diamante, lembrando-se da última vez em que se encontrara com ele. Foram a um motel na beira da estrada. Ficava bem pouco afastado da cidade, no caminho para Miguelópolis. Nunca tinha ficado num lugar tão modesto na vida, achara graça por estar se permitindo, ria-se toda. Agora passava os dias com um sorrisinho no rosto, distraía-se resgatando falas, gestos, ações. Parecia uma atriz desempenhando seu novo papel.
_ Sra. Matias? – disse a funcionária, retirando-a de suas lembranças bruscamente.
_ Sim Joyce. – respondeu trêmula ao chamado.
_ Os convidados já começaram a chegar, a senhora já vai descer?
_ Sim, se alguém perguntar por mim, diga que já estou descendo, só preciso de uns minutos – Encerrou ela, certa de que aquela seria sua grande noite de núpcias.
Pensou nos filhos e teve quase vontade de sentir saudade. Naquele momento tão singular, ela ficou feliz por não tê-los por perto. Cada um, em sua carreira, seguia o curso de sua vida estudantil. Teria apenas que transitar entre os convidados e aguardar o momento no qual Elvis seria seu novamente.
A sacada começava a ficar cheia de convidados quando Sra. Matias surgiu diante das escadas. Não havia dúvidas, ela estava radiante. Cumprimentou a todos com a simpatia que lhe era peculiar.
O prefeito da cidade chamou-a para si. Elegantemente ela foi apertar-lhe a mão. A primeira dama era uma velha amiga e sempre estava por perto, nas alegrias ou tristezas.
_ Luiza, você está radiante. – disse ela com um sorriso não menos radiante que o elogio.
Trocaram algumas palavras sobre a decoração, os vestidos, as jóias enquanto Luiza procurava com os olhos a presença de Elvis.  Ele ainda não havia chegado?
Percorreu todo o perímetro como uma caçadora. Seus olhos avançaram até a piscina, passarram pelo espaço lounge, voltaram-se para o jardim, miraram os garçons e seus rodopios entre as pessoas e então Elvis surgiu. Foi encontrá-lo no meio de um grupo de convidados, todos aparentemente da idade dele. Talvez conhecidos da academia. Vestia uma camiseta branca, que lhe redesenhava os contornos dos braços, dos ombros largos. Seu tom de pele bronzeada ficava em destaque com aquela cor. Os cabelos, muito pretos, estavam leves e o vento brincava com eles vez ou outra. Recostado na parede da sacada, notava-se a jovialidade do rapaz ao gesticular ou rir com os conhecidos. Ele percebeu que Luiza o fitava de longe. Tratou de olhar profundamente nos olhos dela. Seus olhares tocaram-se entre as conversas desinteressantes, os convidados sorridentes, os copos em riste. Tocaram-se tão intimamente que Luiza sentia seu corpo em projeção para outro plano. Um lugar deserto, sem contornos, apenas lugar, e ele: seu objeto sexual. Com o olhar petrificado e a taça de champagne na mão direita, ela ficou estática por um tempo, imaginando que não aguentaria esperar até o fim da festa para degustar o prato principal.
Tudo transcorria como Luiza imaginara, ela só não percebera que seu amigo, o deputado Mário Mendes, inexplicavelmente, aproximara-se de Elvis. Os dois conversavam bastante, bebiam juntos, riam deliciosamente. O deputado, apesar de seus cinqüenta e cinco anos, apresentava um ar bastante jovial e galanteador. Sempre fora um homem bem sucedido financeiramente e amorosamente. Pelo menos as mulheres com as quais se relacionava sempre foram belíssimas e sempre tiveram bem menos idade do que ele. Era um conquistador de meia idade, segundo os mais íntimos.
Luiza estava perto da piscina quando notou que seu garoto, alegrava-se com a presença do deputado. Ela achou interessante aquela conversa íntima.
Uma amiga a envolvia em frivolidades, enquanto ela observava a cena curiosa protagonizada por Elvis e o deputado. Os dois brindavam, pareciam contar piadas, o deputado colocava o braço nos ombros do rapaz, falava ao seu ouvido, tocava-lhe o abdômen, pareciam muito íntimos para um primeiro encontro. Mas o Mário era assim mesmo. Quando estava sozinho, logo fazia amizade. Luiza só não esperava que ele monopolizasse o acesso a Elvis.
A anfitriã passeou entre os convidados, conversou com velhos amigos de mesa em mesa, circulou e nada dos dois “amigos” se separarem. Os olhares trocados pelos dois, os abraços, os cochichos começaram a incomodar Luiza. Ela não queria fazer nenhuma suposição, nem sobre o amigo, nem sobre o amante. Nunca pensaria que...
Mas ao ver o Mário falando ao ouvido de Elvis, ela percebeu o olhar sério do rapaz. Parecia ouvir algo importante, ele tinha o olho fixo em algum ponto do chão e concordava com algo, balançando levemente a cabeça, levantando as sobrancelhas. Então o deputado se afastou do jovem, olhou-o firmemente nos olhos balançou a cabeça, a que o rapaz respondeu positivamente, e se retirou da sacada.
Elvis ficou por uns minutos ali, estava com um ar estranho, Luiza notou que ele parecia meio ansioso. E também notou que ele não a olhava mais. O que estaria havendo?
_ Luiza, minha querida. – chamou-a outra amiga para dizer que a festa estava linda e que estava louca para ver os fogos no lago.
Luiza conversou com ela se sentindo um tanto incomodada. Quando se voltou para a cena anterior não a encontrou como antes. Depois do deputado, Elvis também havia desaparecido.
O prefeito pegou o microfone e começou a falar, agradeceu o convite de Luiza e disse que em retribuição, haveria fogos no lago, para que o novo ano rebentasse mais luminoso do que nunca, para todos. Todos se juntaram para uma contagem regressiva. Dez... a contagem iniciou como anúncio do clímax da festa, seu ápice estava por se apresentar...
E Luiza entrou em sua casa, silenciosamente.
Nove... todos se abraçaram e riram em um uníssono de felicidade.
Ela procurou sinais da presença dos dois desaparecidos.
Oito... a bebida esquentava seus corpos, os abraços os aproximavam da vida.
Então desceu a escada que dava acesso à sacada.
Sete... todos trocavam olhares, erguiam os braços...
Nervosa, atordoada, a Sra. Matias atravessou a sala principal.
Seis... os garçons, seguranças e funcionários riram junto com os convidados, estavam todos entregues às gargalhadas...
Em lances rápidos e ofegante, ela olhou em volta procurando, “caçando”...
Cinco... o grito final estava próximo...
Seguiu corredor adentro, notou pela fresta inferior da porta, a luz do seu quarto acesa, “será que esquecera de apagar?”
Quatro... todos sabiam o que deveriam fazer a cada número a menos e isso os incitava a gritar mais alto...
Continuou na direção da porta, suas mãos tremiam.
Três... estava perto da virada, as gargalhadas continuavam altas e exageradas, na dose extravagante da emoção...
A anfitriã estava aflita, mas era melhor descobrir a verdade.
Dois... estavam todos a um passo do Ano novo, das novas descobertas, dos novos sonhos de virada...
Tocou a maçaneta e abriu a porta bruscamente
Um... o grito estava por vir com força total...
Encontrou os dois entrelaçados em sua própria cama. Elvis estava completamente nu, o deputado ainda usava as calças e a camisa de festa. Notou que a calça do deputado estava aberta e o jovem de costas empurrava seu corpo para trás, contra o do deputado. Atordoada com a cena, a Sra Matias, que não tinha sido notada, ainda teve tempo de ouvir no alto de sua sacada a multidão gritando.
...Feliz Ano Novo!
E no céu surgiu uma explosão total de luzes e de cores.

André Gonçá

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Peça Perdida


            Acordou no meio da noite, demorava nele a impressão de ter comido a casa do amigo. Sonhara um sonho insano. De desespero. De morte e vida. Um sonho assim mal acabado. Descontinuação da história. Era dia de almoço e ainda amava o amigo. Havia toda essa cor no sonho, rubra, rosa. Todo aquele perfume, ah... aquele perfume...
            Sentara-se na ponta da mesa e era festa. A casa respirava, coloria, havia flores na mesa do almoço. Ele comia as tintas da parede, as flores, a toalha de jantar. Os copos translúcidos comia. Os talheres, as telhas a luz do sol na janela.
            Puseram música e ele comeu um pedaço do disco. As marcas dos seus dentes cravadas na melodia, comeu a melodia toda. Entre a música e o cheiro do tempero, as frases dançantes, o alho e a cebola fritos, o vinho tinto e o sangue derramado, a dor, a dor, a dor, ele comia. Sentia sabores. Nos odores. Na empatia. As pessoas eram tão distantes que agora se lembrava que as tirava das fotos dos álbuns para colocá-las no sonho. Eram instantâneos articulados e os comia também. Acordou ofegante, com uma fome estranha. Assistiu às reminiscências do sonho. Bocejou em seu quartinho inodoro. Acendeu a luz insípida. Ao redor, seus móveis imobilizados nada lhe diziam do sonho. Não houve a menor possibilidade de estar feliz. Era um, era único.
            Seu quarto era desesperadamente branco. E não havia divisórias, nem cômodos diferentes daquele. Não sabia nomear sua própria casa. Seus poucos pertences lhe tiravam o apetite.
            A vida se resumira num guardarroupa com vestimentas contadas. Uma mesa pequena na cozinha. Um fogão preto, bem usado, cheio de manchas anônimas. Uma cama de solteiro, colchão de mola, poeira sem idade a empestear sua alergia. Uma pia na cozinha e um banheiro sem pia – único complemento do quartinho.
            Lembrou-se da viagem à Europa, da casa cheia de gente, das discussões filosofais, de toda a literatura e psicologia. Eram lembranças com cores fortes. Traços firmes e saudosos. Memória xilogravada no inconsciente.
            Depois do sonho que naquela noite tivera, ficou ali, lendo sua nova vida em braile. Do amanhã não sabia nada, o hoje era aquilo só, gostava mesmo era das delícias do sonho. Como se o sonho fosse cinema e a vida o jornal impresso. Na tela talvez Almodóvar, no papel o caderno de classificados: procura-se, compra-se, vende-se, humilha-se, despreza-se, sofre-se, enlouquece-se... ah-se...
            Como o dia já apontasse, foi preparar o café. Sentia fome. Lembrava-se da água na boca, há quanto não sentia lhe escorrer a vontade, salivar! O amigo sorria. Queria beijar-lhe as faces, morder-lhe as orelhas, sentir-lhe o sabor dos lábios quentes, queria a felicidade do amigo, talvez beber-lhe o sangue, comer-lhe a carne. Queria a vida que não tinha mais, a felicidade era uma iguaria caríssima agora e o amigo a esbanjava com fartura.
            Era uma inveja boa. Inveja sã. Sentia um ódio quente no coração. Um despeito de alívio. Todos esses sentimentos lhe faziam o coração bater. Um sopro de vida no meio daquele incômodo, daqueles móveis, daquele sono de vida.
            A água borbulhou na panela. As bolhas ferviam em desespero tedioso. Jogou a água dentro do coador e o aroma branco do café aguado penetrou em suas narinas. Colocou na mesinha uma toalha antiquada, bordada com o tédio do fim de tarde e a má vontade de sorrir. Depositou sobre ela a garrafa de café, uma xícara branca, um prato branco com queijo branco e pães com o sabor amanhecido.
            Cortou os pães e os farelos caíam sobre a brancura do prato, formavam um desenho aleatório e abstrato. “Viajou” no desenho. Girou o prato, podia observá-lo em diversos ângulos, ali, no quarto branco, de repente havia feito “arte”? Um momento breve. Riu-se de bobo. Respirou o sorriso, soprou os farelos que voaram para longe da mesa em chuva até o chão. Subitamente ao riso louco, veio um pranto insano. Era humano de novo? Fazia arte, ria, chorava... Agarrou-se então ao choro. Foi deitar as lágrimas numa poltrona simplória. As fotos dos álbuns passaram-lhe pela lembrança como reprodução automática de slides. Aleatórias como as formas da fumaça do cigarro que acendera. Os desenhos, as tonalidades, as cores da antiga casa insistiam em bater na porta do quartinho.
            O café, o pão, o desjejum ficaram esperando. Ele queria novamente comer a casa do amigo. A vida do amigo. Nas fotos do passado. Nas cores do ontem. Nos dez anos a menos e vida abastada. Na casa cheia de cômodos, de compassos e melodias. Nos cheiros dos temperos. No destempero das fantasias. Queria comer o amigo. Como os mais antigos canibais faziam. Tinha as entranhas em chama, mas não era por saudade, era por sentir que pertencia a outra esfera.
            E então acompanhou uma melodia monótona tocada pelo rádio do vizinho. Sem Wagner, Strauss, sentia-se o próprio operário de Chico caindo, caindo, caindo... Levantou-se novamente, comeu mecanicamente, fez a toalete matinal, vestiu uniforme limpo, olhou-se no espelho rachado, a imagem repartida, desfigurada. Estava pronto. Então partiu para o trabalho como peça a ser encaixada na engrenagem da máquina da usina açucareira.
André Gonçá

domingo, 19 de dezembro de 2010

Abandono


Ele estava no escuro.  Apenas a pequena luminosidade do abajour tentava resgatar as formas magras de seu frágil corpo nu, pedaço de gente, rascunho, rabisco de ser humano. Sentado diante da escrivaninha, curvado, apoiava os cotovelos em cima da madeira e tinha as mãos no rosto fantasmagórico. O torpor do whisky aquecia-lhe as bochechas secas e desvinculadas do rubor de outrora. Esse calor fazia-lhe leve, destemido. Embora a tristeza nunca lhe faltasse a presença. Esticou o olhar até um portarretrato e foi ao encontro de sua infância. Ela morava ali dentro, delimitada pelas bordas da moldura, reminiscências do que deixou, do que habita dentro de si. Abraçava-se eternamente aos dois irmãos mais velhos, lembrava-se da felicidade. Hipócritas. Pensava, quando se levantou bruscamente e foi ter com o espelho. Arriscou uma olhadela por um momento. Ainda deu para notar que o corpo trazia consigo as manchas escarlates, estava escarlate, desviou o olhar enquanto se aproximava para ver seu rosto. Olhou os poucos cabelos, o rosto esquálido, mal se via naquelas penumbras, mas já tinha se habituado a estar muito magro. Percebia que a cada dia ficava mais doente, mais prisioneiro da morte, esta sádica devoradora de corpos. Na parede um pôster lhe mostrava o quanto já fora bonito. Sem camisa, de calça jeans, seu corpo exibia um belo tórax, um abdômen invejável, o rosto corado, cabelos cacheados que desciam até o ombro. Aquele olhar era a vida em seu início de vida, quando ainda se é deslumbrado com o mundo, com o devir, consigo mesmo. Aquela foto era a prova mais pungente do quanto a vida lhe pertencera. Agora no escuro, fazia noite dentro dele. Sentia-se renegado como uma aberração, um monstro que sobrevive nas trevas, como uma presença ruim, uma mácula social. Fora julgado e o veredito era culpado. O pior da doença não era a morte certa. Era a falta de vida. Falta de amor. Falta de amigos. O juízo que fazem do doente. Vez ou outra, alguém aparecia sem vontade de ficar, de rir com ele. A boa ação que nos livra da culpa. Já o irmão vinha sempre lhe trazer o dinheiro enviado pela mãe. O porteiro recebia e repassava a ele. O endereço do dinheiro era uma caixa preta em cima da escrivaninha. Como ninguém nunca subia, ele guardava o dinheiro. Pretendia doá-lo a alguma instituição ou devolvê-lo. Nunca os procurava, não precisava ter daquelas pessoas mais do que eles pudessem lhe ofertar. Hipócritas. Insistia.
Ligou o CD, escolheu uma música muito lenta. Gostava de sentir as cores das músicas e pintar-se com elas. Fechou os olhos e dançou levemente, ali no escuro. Seus movimentos resgatavam o pouco de vida que lhe restava, era bom sentir algo, era preciso... Ela o revestiu de contornos amarelos, talvez de felicidade, e brilhava dentro dele espantando a escuridão...
Sem abandonar a melodia, pegou o copo novamente, novamente o encheu de whisky. Já estava sem gelo, bebeu, sentiu o líquido esquentar por dentro, líquido amigo, o único verdadeiramente amigo de uma vida inteira. Rodopiou um pouco observando como o quarto passava rapidamente ao girar. Podia ver o vulto dos móveis, rodando ao contrário de si. Girou, girou, até não mais poder e então começou a sentir tontura, será que já...? Não queria pensar naquilo agora. Deitou-se no chão frio, embora quisesse continuar a dançar, não conseguia mais... não podia mais... faltava-lhe o firmamento, faltava-lhe o ar, desesperou-se por um momento... Hipócritas. Pensava no abandono. Hipócritas. Fechou os olhos cheios de lágrimas. Lembrou-se do dia em que descobrira que aquela febre, aquela gripe...  Ao rasgar o envelope rasgou todos os seus sonhos. Mas o pior não foi descobrir a doença, aquela invasora já em curso, foi descobrir pelas frestas, pelo atrás da porta, pelos becos, pelos fundos, que estava sozinho nessa desventura. Sua fama se apagou como uma vela. Ninguém se lembraria dele. Morreria só. Ele que sempre prezou pela vida dos outros, agora entregava a sua própria vida às mãos da sádica indesejada.
No mesmo momento, em sua suntuosa casa, a mãe do jovem médico, como se as mães realmente tivessem um poder telepático com os filhos – ainda que por elas rejeitados – olhava as fotos do rapaz. Notou a beleza do filho, o olhar cheio de felicidade que sempre tivera. Instantâneos de boas lembranças. Do tempo em que ela sabia o que era felicidade. Uma delas era a mesma que jazia na escrivaninha do pequeno apartamento onde seu filho morava, lembrou-se que fora ela a responsável pelo registro daquele abraço, abraço perdido nas linhas cronológicas do tempo, nas distâncias físicas dos corações sem amor. Ela estava sentada com um álbum no colo, o vento balançava as cortinas das enormes janelas da sala de estar, seus cabelos tintos, muito negros e brilhantes, balançavam ao vento. Era possível notar que seu rosto, quase rejuvenescido pelas plásticas, tirou-lhe a idade. Era uma senhora sem idade definida. Suas lágrimas caíam, chorava toda a sua culpa, elas desciam desenhando curvas de hipocrisia. Sentiu uma saudade do filho que sonhara ter, sentiu-se culpada por não conseguir perdoar as escolhas de sua cria mais nova, de não conseguir mais amá-lo, ainda mais agora com “aquela” doença. Mas não era dia para chorar, teria que enxugar as lágrimas e refazer a maquiagem. Droga, já estava pronta para sair. O vestido longo contornava uma silhueta feminina e elegante. Nas orelhas dois brincos de diamante, no pescoço um colar cujo brilho da mesma pedra, dividida em vários pequeninos grãos, contrastava com o vestido preto. Nem tão valiosa assim era a precária situação do filho, doente e solitário, mas ela o esqueceria por um momento, pois iria desfilar sua elegância no casamento do sobrinho.
Ali no chão de seu apartamento - num estado físico lastimável, que estampava em sua pele uma série de pruridos e pus escorrendo de suas feridas - teve a ilusão de um feixe de luz que se abria sobre o seu corpo, como um portal mágico trazido pela melodia, acesso para um outro mundo? Enquanto essa luz dançava em seus olhos fechados. Seu corpo se debatia convulsivamente, num estado total de inconsciência. Ele babava uma grossa saliva espumante, como se tivesse sido envenenado, arfava, batia os braços e as pernas contra o chão, fazendo um barulho estranho no teto do vizinho de baixo, que sempre o chamara às escondidas pela alcunha de “aidético”. Os espasmos eram terrivelmente assustadores. O físico se despedia da vida. Era este o reflexo da última tentativa de um corpo lutar pela vida? Lutar para respirar, lutar para não padecer, livrar-se de um colapso?
 Mas a alma já tinha escolhido partir. Na escrivaninha, as cartelas de remédio empilhadas evidenciavam esta escolha. Não queria mais viver daquele jeito, pegaria um atalho. E para a despedida sua última garrafa de whisky, sua última dança, sua última ilusão. Ficou ali no chão, testemunha de uma cena de pavor, os braços abertos, o abdômen retorcido, as pernas trançadas, o rosto desfigurado em uma careta congelada. Sem luz, sem choro, sem amor, sem beleza nenhuma, só corpo, só...
E sua mãe, dentro do carro, a caminho do casamento, conferia a maquiagem, no pequeno espelho oval. Deu um sorriso breve com dentes muito claros, achou-se linda, sua pele nunca estivera tão hidratada. Foi então, sem culpa, regar sua hipocrisia em ambiente favorável.

André Gonçá

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Historieta Natalina

à Vera Fischer     

                                                                    

Este conto se inicia com a frenética continuidade de um flashback. Como um filme que se transmite ao contrário, o tempo narrativo contraria a expressividade do que é cronologicamnte lógico. O começo que se apresenta é o fim de tudo, temos assim, da mesma forma, no fim: o início.
Não sei para que camada da pele, um a um, os vermes que regorgitam as microfissuras do cadáver de Rafaela; retornam. Lentamente, desaparecem do seu corpo enclausurado. Sua pele cindida, úmida e mole, lentamente reabsorve as parcas camadas de gordura formando curvas viscosas que desaparecem pelos poros. Perfeitamente, sem marcas, o enfadonho cadáver deixa de estar inchado. O rosto roxo e arredondado volta a ser reconhecível. Volta a ser identificável, o cadáver volta a ser Rafaela morta. Enquanto nossos olhos que tudo atravessam escutam o barulho da espátula do coveiro do lado de fora. Um som que retorna aos antitoques dessa espátula contra o túmulo sem lápide. Do lado de fora, uma senhora loura, de olhos bem avermelhados, que engolem lágrimas bastante dolorosas desespera lentamente. Uma a uma, as poucas pessoas presentes, vão retirando os abraços, o apoio, os sentimentos. A senhora desacompanha o trabalho do coveiro que retira o cimento, retira o cimento, retira o cimento, revelando um buraco. Aquele buraco perdido entre a definição de abrigo ou gaveta, entre tantos que ali se desencontravam.
De repente, o homem abandona a espátula limpa. Pega na alça do caixão, retira-o da cova com a ajuda de outro, mais outro, até formarem quatro.
O cortejo, então, começa a se desapresentar, em passos para trás, andando lentamente em direção à porta de entrada do cemitério, mais feio e mais simples daquele lado, onde não há túmulos elegantes, nem a ostentação da morte "mais digna" dos ricos.
A mulher tem um nome, Vera e caminha para trás abraçada com Gabriel, seu filho. Sei o nome de todos, porque os inventei dentro de mim. E sei também que a dor vai ficando milimetricamente menor conforme as poucas pessoas vão saindo do cemitério. Ao lado, entram num prédio cujas letras garrafais em metal nomeiam: Velório Municipal da Glória. Aglomeram-se na sala 3, passo a passo para trás, onde jaz dois aparadores dourados, uma coroa de flores de plástico, desperfumada, e uma faixa com letras reluzentes a dizerem: "Adeus, Rafaela. Homenagem dos funcionários do Cine Hollywood". As poucas pessoas cerram as mãos e desesperam sua vez de se movimentar. Passam uma a uma a ocupar um lugar naquele espaço sombrio e sem nenhuma elegância, que devolve à garrafa de café, o aroma espalhado pelo ar. Aos poucos, a caixa marrom, de madeira frágil e barata, vai voltando, sustendada pelas mãos de quatro homens, aos aparadores. Eles depositam o caixão e se afastam. Em seu tempo, uma senhora, Dona Camargo, sogra de Vera, torce parafuso por parafuso e retira a tampa de cima do caixão. Revela-se então a figura de Rafaela. Envolta por flores meio murchas, que reabsorvem seu perfume de morte simplória e se revivificam lentamente sobre o vestido branco da jovem. Ela tem a imagem "serena". Um rosto branco, cabelos louros e presos para trás. A mãe lhe aproxima em gestos desaflitivos, engole os choros, os dizeres, a despedida e se afasta. Um padre entra de costas pela porta principal, vira-se para o caixão, faz o "Nome do Pai" ao contrário, engole sua ladainha, novamente o "Nome do Pai" ao contrário, desolha para o corpo ali depositado e sai pela mesma porta, camihando para trás. Alguns momentos antes, Gabriel, irmão de Rafaela, retira o abraço apertado na mãe, pega a tampa do caixão, deposita-a em cima do corpo da irmã. E vagarosamente vai prendendo os parafusos, um a um, do último ao primeiro e re-absorvendo as lágrimas, as quais lhe eram devolvidas pela madeira fria que envolvia a concretude da morte de Rafaela. Então, quatro homens adentram ao local. Retiram o caixão com destreza, caminhando de costas até saírem pela porta lateral. Um a um, vão retirando os abraços à Vera, a Gabriel, que saem pela porta da frente, desabraçando-se lentamente, despensando a morte da jovem, desimaginando como fora assaltada ao sair do banco, desarranjando maneiras para ela não ter reagido. Em suas mentes, Rafaela sorvia seu sangue novamente, abria os olhos, levantava-se, ejetava de seu peito a bala que lhe atingira em cheio e destraçava no ar um caminho desesfumaçante até o cano do revólver de onde nascera. "A vida  era devolvida aos olhos da jovem. A  imagem reluzente do pequeno salário de faxineira registrada, pelo dono do cinema, esperançava-lhe um Natal menos pobre, com mais saciedade, com mais fartura, com 'possibilidades', ofegava, compraria uma árvore com enfeites coloridos e PISCA-PISCAS..." E devagar ela ia despensando tais possibilidades, andando para trás com a bolsa à tira-colo e seus sonhos anotados num pedaço de papel, sonhos pequenos, que ali cabiam; enquanto ela desolhava as vitrines, desatravessava as ruas, sempre andando para trás, de volta ao começo do sábado.

André Gonçá