Naquela manhã de domingo, ela deixou de ir ter com os seus. Afinal entendera que não tinha o seus. Não lhe pertenciam nem os pais, nem os amigos. Os “amantes”... Tantos que foram, sexo rápido, sem nenhum prazer, nem os sabia amantes também. Apenas a imagem de Léo veio à sua mente. Estava ofegante e sentia muita dor no corpo. Ela estava sem um dos sapatos de salto, suas unhas postiças haviam se perdido e sua saia estava manchada com o sangue de suas mãos. Em sua boca ela podia sentir o gosto de sangue, a língua queimava em brasas.
Sentou-se na plataforma de madeira flutuante, em sua ilha imaginária no Lago Maracá. Mergulhou os pés na água. Um acalanto para as suas dores quando criança. Aquele lugar a acolhera tantas vezes nas manhãs de domingo. Depois de noites e noites sonhando com a satisfação eterna na efêmera sábado à noite, finalmente era ali que terminava o sonho de Cinderela sem par. Ao ouvir as badaladas do sino da igreja, ela não fazia ideia de como seu conto de fadas se encerraria.
Chamava-se de Déborah, gostava daquele nome desde sempre. Ela mesma havia se batizado. E quantas foram as vezes em que sonhara com o seu batismo. Sua mãe preocupada com o almoço do domingo, dando-lhe apoio em seus braços, o pai dando-lhe o conforto em seus olhos, o padre dando-lhe uma religião em sua bênção sagrada. E o Léo de terno e gravata dando-lhe todo amor que ela precisava. A tia de longe viria, com os primos mais velhos. Depois haveria muita alegria pela casa. Todos felizes, comemorando seu renascimento glorioso abençoado por Deus.
Mas Deus havia lhe virado as costas. Tanto amor que desde criança, quando já sonhava em ser menina, havia devotado a ele, e nenhuma permissão para ter lugar no seio da religião em que fora criada.
Tinha muitas clientes do salão de beleza onde trabalhava como manicure, psicóloga, madre, cafetina, prostituta. Sentia-se uma verdadeira artista, sob o olhar daquelas que lhe doavam condescendência. Achavam-se melhores do que ela. Riam juntas das histórias que contavam e pareciam melhores amigas naqueles instantes.
Deborah ficava sabendo sobre a vida de todo mundo na cidade. Os noivos que pulavam a cerca, os padres que saíam com beatas, os maridos que comiam “veados”. Tudo lhe era entregue nas mãos. Poderosas mãos de manicure...
Sua diversão preferida era ficar em casa sonhando com as Divas americanas. Fazia dublagens em frente ao espelho, sem ao menos conhecer a letra das músicas. Imaginava-se muito famosa e criava para si nomes que nem sabia pronunciar, namorava atores famosos, saía em revistas de fofoca, ganhava prêmios fabulosos, morava em lugares do mundo onde nunca iria e naqueles instantes se achava linda, amava-se e seu poder era ilimitado.
Era sua vingança particular contra sua mãe religiosa, que a deixou ser expulsa de casa pelo pai machista e alcoólatra, na sua festa de dezoito anos.
Quando criança, certa vez, todos haviam saído de casa, então ela foi ao quarto de sua mãe. Um lugar tão mágico quanto uma casa de bonecas. Havia tantos perfumes, batons, vestidos, sapatos, que Henrique não pôde resistir. Sentou-se na frente do espelho e assim foi se transformando, cuidadosamente em Deborah. Colocou blush nas pequenas bochechas de menino. Borrou o batom em seus lábios. Penteou os cabelos como se fossem lisos e longos. Depois abriu o guardarroupa e escolheu o melhor vestido de sua mãe. Ficou enorme, mesmo assim para ele aquele momento era seu, único e algo lhe dizia que ninguém lhe tiraria aquele prazer de se ver como realmente era: uma menina.
Então a mãe entrou no quarto e o pegou como se ele fosse uma boneca de pano. Sabia que seria punido, por alguma coisa muito ruim que fizera. Mas, sentia nos olhos da mãe que ela não sabia o que fazer. Sua única reação foi bater em seu frágil corpo com um cinto de couro, enquanto todo seu ódio a fazia rasgar o vestido aos pedaços. Henrique ficara totalmente despido. Por um instante a mãe olhou seu filho diante de si, um pequeno sopro de compaixão resfriou sua alma, viu que as lágrimas desesperadas de Henrique derretiam toda a maquiagem de seus olhos, sua máscara de menina fora arrancada. Ela ainda tentou dizer alguma coisa, ensaiou uma frase que justificasse o que fizera, mas fugiram-lhe as palavras.
Dona Ondina, o exemplo de cristã da cidade, resolveu que deveria levá-lo à igreja. O padre daria jeito naquele menino, “só Deus”, falava em voz baixa para não encarar as amigas. Porque teve que explicar para elas o que havia acontecido, pois faziam parte de um grupo de oração semanal, no qual todas as mulheres de boa vontade da cidade se reuniam. Todas queriam ajudar Ondina contra as ações do demônio e oravam por Henrique.
Enquanto elas oravam, o menino ficava trancado na sacristia da igreja recebendo conselhos do padre e lendo trechos da Bíblia sagrada. O padre era muito amoroso, muito carinhoso com Henrique, tanto que o garoto saia transtornado da igreja todas as vezes que se trancava com ele naquele lugar “sagrado”. Ninguém entendia o que estava acontecendo, por isso todas elas intensificaram as orações.
E durante meses, Henrique apanhou de sua mãe todas as quartas-feiras para ir ter com o padre. E suas amigas rezaram todas as orações que conheciam. Até que um dia o padre foi passar uma temporada de seis meses na Itália, com o pesar das senhoras e senhores da cidade. Houve festa, fogos de artifício, quermesse e muitas despedidas. Naquela noite, enquanto os fogos estouravam, Henrique deitado em sua cama via as luzes coloridas refletirem na janela de seu quarto. Ele fechou os olhos e até agradeceu a Deus...
Em seu aniversário de dezoito anos, o pai intrigado com o jeito feminino do rapaz, seu modo de vestir, corte de cabelo, orelha furada, insinuou na frente dos convidados que ele não gostava da ‘fruta’ e completou:
__Já está na hora de você começar a namorar, rapaz. Na sua idade eu já tinha namorada. Quer dizer, na sua idade, todo rapaz macho tem namorada.
Ele olhou bem fundo nos olhos do pai, que estava bêbado, e percebeu que não haveria oportunidade melhor para se vingar daquele homem asqueroso, alcoólatra, violento e gritou... Gritou toda a sua liberdade e direito de ser quem era: disse que jamais se casaria com outra mulher, porque ele era uma mulher. Um dia, ele ia se casar com um homem. E sob risadas nervosas, o Sr Fausto tentou não entender a resposta à sua provocação, mas foi impossível.
Henrique foi arrastado até a calçada como um saco de lixo, na frente dos convidados, vizinhos, amigos, sua mãe; sem direito à defesa. Levantou-se com dignidade, ainda encarou toda a família de tal forma que todos ficaram constrangidos em admitir ao garoto que seu pai tivesse alguma razão. Virou as costas e seguiu, sem olhar para trás e sem saber olhar para frente. Para onde iria?
Depois de andar batendo de porta em porta, uma senhora aposentada o acolheu, pagaria suas despesas com o dinheiro do salão onde trabalhava. E assim passou a morar em um cômodo no fundo da casa dela, que nunca fez questão de entender se ele era homem ou mulher. Ela queria apenas o pagamento em dia. Naquele lugar, ele se estabeleceu, em seu paraíso, longe do ódio e longe do amor. Foi então que se transformou definitivamente em Deborah, a Diva do Lago, como costumava dizer.
De vez em quando, ela saía com suas amigas para dançar. Afinal, a noite de sábado era o seu grande sonho de princesa de televisão. Nunca tinha lido nenhum conto de fadas, a não ser a Bíblia, mas, de ouvir dizer, sonhava encontrar seu príncipe encantado, alguma fada madrinha lhe teria compaixão? Desejava com toda a sua alma encontrar um homem que a amasse. Queria sentir prazer fazendo sexo. Desde que fora violentada, na infância, achava que sexo era ruim, mas não deixava de sentir uma vontade imensa de praticá-lo, embora o tivesse transformado em um meio de sobrevivência, tinha esperança de sentir algum prazer. E no momento em que acabava, estava incompleta novamente. Como se fosse obrigada a ser apenas um eterno brinquedo nas mãos de seus parceiros.
A melhor transa de sua vida tinha sido com uma amiga lésbica transexual. Ela saia com travestis e era muito carinhosa. Foi a única vez que conseguira gozar de verdade e nem precisara ter ereção para isso. O acolhimento, o carinho, a forma masculina afeminada como aquela mulher a tocara, mostraram-lhe a verdade sobre o sexo. Uma verdade peculiar que transcendia o masculino e o feminino. Ela não pensava sobre o assunto, apenas sentia. Quase entendeu que estava apaixonada.
Ali, sentada na plataforma flutuante, não conseguiu pensar em seu futuro ao observar atentamente o inchaço de seu rosto refletido nas águas do lago. Sua tristeza era tamanha que não conseguia organizar os pensamentos e chorava como há anos não havia feito.
Na noite anterior, ela fora a um show com suas amigas. Durante o evento, após algumas cervejas, Deborah se dirigiu ao banheiro feminino. Na porta havia uma mulher carrancuda. Ela lançou seu olhar para Deborah deliciosamente trajada, usava um vestido de tecido leve, que lhe garantia feminilidade autêntica ao seu corpo de menino. Nem as outras mulheres dominavam tão bem um sapato de salto alto como ela. O encanto que tal mulher sentiu por Deborah foi tão intenso e violento que lhe provocou um sentimento de ódio e despeito em seu corpo adiposo e ensebado pelo suor que lhe escorria das têmporas.
_ Este banheiro é feminino. Você não pode entrar... Deborah recuou transtornada.
_ Se quiser... Vai no banheiro masculino. – E com um sorrisinho no canto dos lábios completou: _Quem sabe você não se arranja por lá? Calada, a jovem dirigiu-se ao banheiro masculino. Parou diante da porta, respirou fundo, sentiu aquele cheiro ácido de urina e entrou. Havia vários homens enfileirados ali. Eles a buscaram com seus olhos de medo, nojo, desejo, ódio... Eram muitos e cada um a leu de uma forma. Todos sabiam quem era aquela figura: o filho de dona Ondina, a religiosa.
Um silêncio constrangedor pairou no ar. Todo mundo parou de falar. Foi como se ela tivesse pedido silêncio para desfilar a perversidade da sociedade. Mas era boa atriz, seu constrangimento atingiu um nível desolador, então ela encarou o chão fingindo ter percebido algo em seu sapato.
Nesse momento um dos caras quebrou o gelo com uma piadinha de bicha. Todos os outros riram, um riso nervoso de provocação, quem ousaria não rir? A cada abertura de porta, era um a menos na fila. Havia aqueles que faziam no “coxo” mesmo, rapidamente e saíam desconfiados. Cada passo, próximo ao banheiro privativo era para ela uma oportunidade de ficar longe da humilhação. “Anda logo”, pensava aflita.
Quando o penúltimo homem da fila entrou no banheiro, um jovem meio cambaleante surgiu porta adentro e percebeu a presença de Deborah na fila.
_Ui... que gata, hein? Tá precisando de macho é?
Conhecia aquele sujeito, ele era cliente dela. Muitas vezes tinham saído juntos, às escuras, pois “tinha uma noiva” e “iria se casar em breve”. Os dois se reconheceram e Deborah sentiu que ele estava com aquele olhar de revolta. Todas as vezes em que ficaram, depois que gozava pedia para ela sair do carro, parecia tomado por nojo, asco. Ela pegava seu dinheiro e ia embora. Mas naquele momento ela estranhou a reação do rapaz, que continuou:
_Você quer pau, é? Por isso que está aqui? E como se uma epidemia tivesse tomado conta dos dois homens que não ousavam olhar para ela, começaram a rir, livrando-se do constrangimento e libertando uma cumplicidade amedrontadora.
O troncudinho bêbado, ao conseguir atenção de uma platéia inteira, de “machos”, que foi surgindo, começou a incitar os outros caras a agredir Deborah.
_ É isso aí galera, veado a gente mata é no pau. Vamos dá porrada nessa bicha. - Então ele partiu pra cima dela, segurou-a pelos braços. Ela implorava para que a soltassem, pedia socorro, ninguém a ouvia do lado de fora do banheiro masculino. Assim, o rapaz jogou-a contra a parede de costas, outros dois a seguraram com força.
_ Agora você vai ver o que é levar pau.
A força avassaladora com que a violência tem em tomar conta de pessoas aparentemente inócuas e vazias de sentido levou aqueles sujeitos a cometer uma insanidade coletiva contra Deborah.
Os socos e chutes se desenhavam no ar com uma velocidade impressionante. Naquele momento, seu corpo, tornara-se um mero objeto, algo sem interior, sem existência, sem identidade, sem nenhum valor.
O tempo de um instante foi o que durou um rápido resgate que fez de sua infância naquele momento. Em meio ao odor da urina, e a escuridão desconfortável daquele lugar, ela vislumbrou a caixinha de música que sua tia louca lhe dera, antes de falecer.
_ Meu filho, tome essa caixinha de música pra você. Sei que gosta muito dela. Brinque muito com as minhas jóias. Você é meu pequeno porta-jóias. Quero que seja alguém muito especial, mas que seja você mesmo, sempre. Está ouvindo este som? Às vezes a gente não consegue dançar ao som das músicas... Guarde esse conselho com você, ele pode se tornar assustador para algumas pessoas. Não se iluda com as jóias, elas são apenas enfeites que vem e vão, no final só nos resta a caixinha e sua linda melodia.
Então, tudo pareceu fazer parte de um grande engano. Todos ao seu redor moveram-se ao ritmo daquele som lento e compassado, que acalantava sua mente de menina. Leve bailarina a rodopiar em “Pas de deux” diante de glamourosa platéia a aplaudir seu talento exuberante.
Ouviu-se um estrondo quando caiu no chão, foi pisoteada, chutada:
_ Na cabeça não – disse um dos sujeitos num tom “misericordioso”.
No momento em que sentiu que ia desfalecer, teve tempo de perceber a presença de outro jovem. Ele também deu socos e pontapés, mas não os sentira. Antes de tudo se apagar, ela notara que ele não batia contra seu corpo, mas contra o corpo dos outros homens dentro do banheiro. Ainda teve tempo para um meio sorriso, percebeu que era seu príncipe encantado, o Léo da sua infância. Tudo se apagou.
Quando acordou, estava deitada debaixo de um quiosque no parque. Alguém a levara até ali? Levantou-se devagar e quando ergueu a cabeça, sentiu-se tonta em meio às imagens que lhe invadiam o pensamento. O que faria? Pedir ajuda aos seus pais era impossível. Ouviria um monte de desaforos. Buscar a polícia? Seria muito pior do que os pais. Enfrentar o olhar de piedade das amigas? Jamais...
Tirou o sapato e foi caminhando até a calçada, pois estava no meio do parque, entre as árvores. Estava um pouco escuro ali. Não conseguia ver direito onde pisava. As luzes da rua estavam ficando perto. Foi então que percebeu um vulto. Era certamente um homem que a rodeava.
_Quem está aí? – Perguntou sem poder enxergá-lo direito. – ... quem está aí?
_Acalme-se. Eu voltei pra ver como você estava. Fui eu quem a colocou no quiosque – disse ele se aproximando dela.
_ O que foi? Sentiu remorso? Veio ver se eu tinha morrido? – disse Déborah aos prantos.
Um silêncio assustador criou-se entre os dois quando se olharam no olho com o descortinar das luzes da rua, este olhar foi tão avassalador para a alma de ambos que pareceu nunca ter fim. Uma coruja anunciando sua presença cortou o silêncio com seu canto mórbido.
_ Eu sou o Léo! – disse ele como quem revela um segredo.
_ Prazer – disse ela, como quem entende que não havia motivo para ter medo. E então sentiu que algo de bom lhe havia acontecido, no meio da tragédia, um homem havia lhe salvado a vida.
_ Eles teriam me matado? – continuou esboçando um entendimento da situação.
_ Com certeza. Eles iam te matar quando eu cheguei. Você estava sendo pisoteado, pisoteada, tinha um cara chutando sua cabeça. Quando vi aquilo não consegui me controlar. – ele se virou e sentiu uma lágrima caindo e sua respiração ofegante. – O que você fez pra eles? – o tom da pergunta foi vago e a resposta foi um longo silêncio.
As pernas de Déborah doíam, sentia também as costas, o abdômen, e sua cabeça latejando por dentro e por fora. O rapaz tirou um lenço do bolso e entregou nas mãos dela.
_ Tome, pra você limpar seu rosto. Eu estou no carro do meu irmão. Você tem que ir ao pronto-socorro. Vamos. – disse ele com um ar heróico.
No entanto, ela, ciente da situação olhou bem fundo nos olhos dele e sussurrou cansada:
_ Você tem certeza que quer andar comigo até o pronto-socorro? Isso tudo vai terminar com um B.O. quer ser testemunha?
_ Eu voltei aqui para fazer isso. Sou seminarista. Não posso deixar um filho de Deus sofrendo desse jeito.
_ Alguém da sua família sabe que você está comigo? – perguntou a jovem com o receio de criar mais um problema para si.
_ Não se preocupe. Estão todos dormindo a esta hora. Não preciso que ninguém saiba de nada.
Ela balançou a cabeça negativamente.
_ Obrigada. Você fez hoje por mim, mais do que qualquer pessoa já fez em minha vida inteira. – estendeu-lhe a mão no intuito de confirmar o agradecimento.
Léo relutou em tocar, aceitar a mão de Deborah na sua. Quando as mãos se tocaram foi inevitável uma volta no tempo. Ambos passaram a ser crianças novamente e se lembraram de quando moravam perto um do outro. E quando dançavam juntos ao som da caixinha de música da tia louca de Déborah. Sonharam esse instante quase que simultaneamente. Henrique deixou cair um objeto no chão e Deborah se abaixou para pegar. Era um terço de prata, um presente que Dona Ondina havia comprado para Léo há muitos anos atrás, numa tarde de sábado. Henrique havia escolhido, porque sabia que o amigo estava indo para um colégio católico, queria que levasse o presente para que durante a época das aulas eles tivessem algo para se lembrar um do outro. Henrique tivera um igual, mas acabara perdendo.
_ Eu sei quem você é. Me lembrei de imediato, quando o vi me salvando, antes de desmaiar. Este terço – Deborah o mostrou em sua mão -Eu me lembro do dia em que te dei este terço. Você o leva para onde vai?
O jovem seminarista ficou meio ansioso. Aquela conversa estava seguindo por um caminho que não lhe agradava nem um pouco. Não pretendia nenhum tipo de aproximação daquela, daquele...
- Tenho tantas lembranças de quando éramos... Lembra-se quando dançávamos juntos... Ela se calou, percebeu que estava seguindo por uma direção contrária à de seu príncipe seminarista.
O silêncio novamente se fez presente, mais constrangedor ainda. Depois de algum tempo Léo perguntou:
- O que houve com você, Henrique? Aquilo tudo era coisa de criança, a dança, a música, a gente cresceu. O que foi que você se tornou?
_ Você não é meu amigo? Não iríamos ficar juntos pra sempre?
_ Me diga, quem vai aceitar isso? Como você pode viver assim? Então Deborah percebeu que estava longe de ser aceita por ele, que a olhava com olhos indefiníveis. Era impossível reconhecer seu amigo de infância, seu primeiro namorado.
- Eu me tornei o que sempre fui. O que você está vendo sou eu realmente. Não estou usando uma fantasia. Sou uma mulher.
Léo sentiu tanto medo, queria sair dali, precisava ir embora. Não queria ouvir aquilo, não queria entender o que estava sentindo.
- Não você não é uma mulher. Deus te fez homem. Você tem que honrar isso, ninguém pode mudar a vontade do Senhor, você está confuso.
Ofegante, e já sem saber o que estava fazendo ali, Léo se calou e sentiu que estava tendo um ereção. Tentou disfarçar, mas Deborah percebeu e com sua calma complacente, recostou-se numa árvore e disse:
_ Se quiser, pode ir, eu já estou bem. Vá antes que o que houve entre nós se transforme em algo que você nunca vai conseguir entender.
Ele continuou com aquele ar relutante de antes. O que havia naquele olhar? Como alguém pode conter no olhar um misto de bondade, crueldade e desejo tão intrínsecos que não se consegue definir onde começa um e onde termina o outro.
_ Eu sinto muito... – suspirou o rapaz, com os lábios úmidos de desejo e pavor.
O jovem virou-se na direção da rua e foi andando rapidamente. Tão rapidamente que não percebeu que esquecera o terço. Alguma coisa dentro dele entrara em conflito: jovem e sexy princesa de sua infância despertara algo dentro dele.
Déborah o viu entrar no carro. Ele ainda demorou uns minutos. Então finalmente partiu. Seu rosto tinha um semblante indefinível. Enquanto o carro desaparecia ao longe, ela seguia adiante. Adentrou ao parque em direção à sua plataforma flutuante. Notou que já estava amanhecendo.
Sobre seu reflexo na água, enxugou as lágrimas, pois não queria sentir tristeza por causa de nada. Então, imaginou-se uma sereia, como num filme que assistira depois da novela. Poderia mergulhar naquele lugar que sempre a acolhera e nunca mais voltar. Conseguiu imaginar a reação de cada pessoa de sua família ao receber a notícia de sua morte.
Sua mãe ia fingir que estava passando mal. Pediria perdão a Jesus em seu lugar. Faria um velório grandioso em sua memória e a colocaria vestida num lindo terno preto. Seria enterrada como Henrique, seu rosto teria um semblante masculino e seus cabelos seriam impiedosamente cortados.
Tudo se tornaria num grande evento social e as amigas diriam com uma profunda piedade: “Coitada, mas infelizmente o destino dessas pessoas é esse mesmo”. As clientes mandariam coroas de flores e iriam ver o seu cadáver só por curiosidade mórbida. “Como ele ficou bonito de homem, meus pêsames dona Ondina”.
E o padre pedófilo iria rezar o rosário evitando não lembrar que o estuprara repetidas vezes na sacristia, na época em que, ainda Henrique, ele fora seu orientador de leitura da Bíblia. Sob o mesmo teto sagrado em que sua mãe fazia suas intermináveis novenas pedindo proteção a São Sebastião.
A manchete no jornal a deixaria famosa. Finalmente seria notícia oficial. Como falariam dela no artigo? Já tinha tudo em sua mente. Usariam palavras bem interessantes para falar de Déborah e Henrique - seria a segunda vez que morreria.
Preparava-se para voltar para casa quando viu um vulto na superfície do lago, alguém estava atrás dela, teve um segundo de esperança, pensou ser Henrique voltando para se desculpar e...
Foi quando sentiu uma forte pancada na cabeça, que instantaneamente a levou da realidade. Assim sonhou que se entregava às águas geladas do lago, uma imagem projetava-se como filme de sessão da tarde em sua mente. Flutuava sob as águas, sua roupa, seus cabelos, pareciam levitar. Vislumbrou sua tia louca dando corda na caixinha de música.
Então, pela última vez, dançou longamente aquela melodia delicada com seu par preferido. Estava vestida de princesa e ele com a roupa de padre da paróquia de sua infância, seu príncipe seminarista, Léo. Depois, foi apenas o silêncio, o vento, os pássaros, os sons do início do domingo...
E os passantes não entenderam quando aquela mulher com corpo de menino surgiu boiando às margens do Lago Maracá, com um terço de prata entrelaçado em suas mãos.